quando
decidiste partir os teus olhos já presos a outros a tua mão já em outra mão disseram-me que o teu coração voara tocava agora o arco-íris planavas num céu apetecido
aquele trigal dourado de outrora ciciante de Zéfiros pululantes está letárgico e taciturno franzino de dor acutilante que só a morte friamente inflige
a semente desfalece impotente diante de superiores desígnios intocáveis irrevogáveis
o trigal agoniza lentamente e desse horizonte de terra-mel perdura na memória indelével um universo de indizível carinho um colossal pilar de estabilidade um amor indescritível imanente imutável
esses sussuros melífluos das espigas definham no infinito das planícies mas sobrevivem neste coração torturado para sempre
hoje despedi-me de ti ainda que o não saibas quis olhar-te nos olhos uma última vez aconteceste-me um dia e milhares deles contigo dividi
e vi o baço fulgor nos teus olhos inexoravelmente rutilantes a culpa pérfida e muda volitando em teu redor
no teu rosto vislumbrei esboços imprecisos das criminações com que me mimoseaste certezas convictas bebidas em cálices envenenados taças negras erigidas no fundo do mar da vida
todo o teu corpo inquieto denunciava a renúncia exalava horrores quiméricos gritava conluio cônscio letal veneno voluntariamente
ingeriste
milhares de instantes partilhados bordados de sorrisos uns outros de lágrimas deslustrados roseirais de ilimitadas cores e de espinhos mil aguçados
errámos o caminho outros - brilhantes - nos aguardam assim saibamos merecê-los sem mágoas nem melindres
hoje despedi-me de ti e há um templo de memórias que comigo habita hoje amanhã sempre
ficaram lágrimas e alegrias
arrependimentos talvez
e tudo o que restou
cabe agora na palma da mão
esvai-se entre os dedos
como minúsculos grãos de areia
que o vento abraça
e nos rouba
tudo o que restou
um espaço
descerrado
no coração da vida
a tua presença longínqua não me basta as minhas entranhas aguardam-te ainda os meus lábios absorvem o pesar da tua ausência e o meu corpo todo ainda prenhe de ti clama o teu nome
de súbito
oceanos desabaram sobre mim
e qual arca de noé
levantada do chão por uivos ciclónicos
navego entre o céu e a terra
prenhe de medos e esperanças
parida que foi a dor da desilusão
na desleal arena da vida a
existência acontece matreira répteis
desmedidos espreitam
uma irreflexão pérfidas
serpentes entrelaçam-me
prazenteiras e
o riso das hienas pressagia
o odor putrefacto do
meu fim