segunda-feira, 29 de junho de 2009

άλφα...ωμέγα




amo-te
como Hélios ama Géia
e prenhe de ternura
a envolve num abraço
imenso e perpétuo

amo-te
como o orvalho límpido
se precipita sobre o prado
e desliza fecundo
no ventre ansioso

amo-te
como a lua ama a noite
com hálito de prata
extasiada a seduz
e a afaga de luar

amo-te
como o nascente ama o poente
bailando na noite-breu
para desabrochar autêntico
nessa dança que o perfaz

amo-te assim
hoje e sempre
alfa e ómega
de mim




alexandra, 09-02-09





domingo, 7 de junho de 2009

instante




por um instante
distingui-te além
envolto em azul e ouro
e aroma de terra molhada

desassombrei-te
e nesse instante pulsante de eternidade
rememorei-te em teias de luz distante
inflamada de momentos
absortos no brejo que escorre do olhar da fénix
em busca impaciente de cinzas para ressurgir


alexandra, 2009



domingo, 19 de abril de 2009

a tua ausência



a dor da tua ausência
oculto-a nos sorrisos imperfeitos
que rabisco no vazio
quando visitas meu jardim
subconsciente e íntimo

descubro-a nos soluços cavados
que sobressaltam meu chão
sismos que ameaçam meu templo
edificado em terra-de-ninguém 

entrego-a na lágrima obstinada
que nasce no rincão oculto 
de onde toda a inquietação 
ingovernável e sôfrega flui

a dor da tua ausência
deslaço-a em mim
colo de quimeras mil
pasto tenro de desvarios
estupendos e plácidos 

porque
na tua ausência 
a dor é pilar em mim
é oriente e aurora 
e meu fontanário de ser 

alexandra,  03-04-09




quinta-feira, 2 de abril de 2009

aniversário



uma a uma
trasbordam lágrimas de mim
no chão da vida

e a meus pés

na dor derramada
diáfana de mágoa
distingo o meu passado
presumo o meu devir



alexandra,  01-04-09



terça-feira, 31 de março de 2009

fantasia



quero levitar-me em litorais
de névoas que me amimam o sentir
perfumada com olfatos de marés
e de infindos sonhos enfeitada

acordar madrugadas de licor e mel
em tua seiva quente de jasmins
ser de tua concha a pérola nívea
que em ti se aninha docemente

depois derramar-me encosta abaixo
em ecos de desmedida luz difusa
vestir a terra inteira de presépio
orvalhá-la com tomilho e alecrim

aventurar meus desejos de carmim
em tua língua de veludo-mosto
devorar o abismo nos teus lábios
em espasmos de gostosa infinitude

sentir-me carrossel ensolarado
rodeando descuidado o firmamento
e precipitar-me liberta por inteiro
de levante no teu mundo a que regresso



alexandra,  2009








domingo, 29 de março de 2009

anseio




quisera ir-me
em ondas de almíscar
até lá
onde nasce o arco-íris
cais de abrigo do meu dia

quisera partir
vestida de estrelas
e espigas douradas
com sabor a pão
e não mais voltar
despida de afagos
vazia de sonhos
para não mais adiar
o voo do ninho
a abandonar




alexandra, 2009






kronos




nas rugas do tempo
lavrei indeléveis
trilhos que percorri
na vida em que me acho

foram mil cavalgadas de espanto
êxtases a pinceladas gravados
essências fugidias de sândalo
que perfumaram a nossa jornada

busco-te cavaleiro-sombra
perdido numa esquina da vida
vadio em avenidas amarrotadas
por mãos descuradas de candura

neste tempo a rugas esculpido
denuncias-te no meu rosto
ora de gelhas dissimulado
e rasgas nostalgias abissais




alexandra, 2009




sábado, 14 de março de 2009

a ti



procuro-te
no raio de sol que me esperta
na seiva de orvalho a gotejar no vidro
na transparência da lágrima que se não detém

procuro-te
no passado lançado no fundo das planícies
no sorriso esmorecido nos meus lábios
na mão que implora em pleno vento

procuro-te
no meu presente íngreme e escarpado
rasgado de vielas desamparadas
escrito em sombrias furnas de olvido

procuro-te
em oásis que invento em mim
fulgurantes de fantasias deléveis
e em lagos translúcidos de ti
tão de ti
vulto etéreo de contornos impalpáveis
que escoas como bruma em meus abraços




alexandra, 2009



domingo, 25 de janeiro de 2009

sofisma




li em tuas mãos estendidas
um oceano úbere de afetos
onde me afundei iluminada

e quando em tuas mãos
inexorável o abismo sucedeu
calei o funesto brado
e em meu peito
o cravei dilacerada



alexandra, 25-12-2008




sábado, 24 de janeiro de 2009

hoje



hoje fui madrugada desmaiada
e fui traço impreciso
desenhado a negro
em tela escura

hoje fui sol sem o fulgor de outros sóis
os braços tímidos feridos de desumanidade
o sorriso debruado a mágoa
o olhar sulcado de riachos

e vi tombarem sonhos
em túmulos de incredulidade
escutei o desabar do meu sofrer

ainda hoje serei lua 
desenfeitada de luz
estrela pálida cinzelada no horizonte
a aguardar o ribombar da dor
e o acordar da aurora estiolada em mim




alexandra, 24-12-2008




segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

permaneci (opportune tempore... in fine)



permaneci onde me deixaste
quando decidiste partir
os teus olhos já presos a outros
a tua mão já em outra mão
disseram-me que o teu coração voara
tocava agora o arco-íris
planavas num céu apetecido
e a tua fortuna
revestiu-me de felicidade


alexandra, 2004







esquecimento




sou o cinzeiro esquecido
ao canto da mesa
cheio de cinzas por limpar



alexandra, 30/01/2002



busca




luto
persigo um destino
que me sorri
cautelosamente
ao longe
de longe



alexandra, 20/06/2002




domingo, 20 de julho de 2008

eternamente



esse relâmpago no teu olhar
a ebriedade na pele impetuosa
e nos lábios de veludo desmaiado
são murmúrios incessantes
de outrora
de agora
e do odor melífluo do meu ser
emergem memórias de uma vida
no líquido oceano do meu desejo
tu navegas-me ainda 
vives em mim eternamente



alexandra, 2006








domingo, 16 de março de 2008

ad eternum




aquele trigal dourado de outrora
ciciante de Zéfiros pululantes
está letárgico e taciturno
franzino de dor acutilante
que só a morte friamente inflige

a semente desfalece impotente
diante de superiores desígnios
intocáveis
irrevogáveis

o trigal agoniza lentamente
e desse horizonte de terra-mel
perdura na memória
indelével
um universo de indizível carinho
um colossal pilar de estabilidade
um amor indescritível
imanente
imutável

esses sussuros melífluos das espigas
definham no infinito das planícies
mas sobrevivem neste coração torturado
para sempre
ad eternum




alexandra, 27-04-2008


quinta-feira, 20 de setembro de 2007

desilusão






beijos fugazes
quedas da altura dos abraços
mãos que me soltam
em covas por tapar
conselhos mudos



e só queria viver



alexandra, 2003



segunda-feira, 20 de agosto de 2007

vida



vida
tela branca onde pintamos em traços livres os instantes da nossa existência



alexandra,  2007



domingo, 12 de agosto de 2007

despedida (opportune tempore... in fine)




hoje despedi-me de ti
ainda que o não saibas
quis olhar-te nos olhos
uma última vez
aconteceste-me um dia
e milhares deles contigo dividi

e vi o baço fulgor nos teus olhos
inexoravelmente rutilantes
a culpa pérfida e muda
volitando em teu redor

no teu rosto vislumbrei
esboços imprecisos das criminações
com que me mimoseaste
certezas convictas 
bebidas em cálices envenenados
taças negras 
erigidas no fundo do mar da vida

todo o teu corpo inquieto
denunciava a renúncia
exalava horrores quiméricos
gritava conluio cônscio

letal veneno voluntariamente ingeriste

milhares de instantes partilhados 
bordados de sorrisos uns
outros de lágrimas deslustrados
roseirais de ilimitadas cores
e de espinhos mil aguçados

errámos o caminho
outros - brilhantes - nos aguardam
assim saibamos merecê-los
sem mágoas nem melindres

hoje despedi-me de ti
e há um templo de memórias
que comigo habita
hoje
amanhã
sempre




alexandra, 2003



sexta-feira, 10 de agosto de 2007

tempo (opportune tempore... in fine)



com o tempo
chegou o fim previsível
almejado

ficaram lágrimas e alegrias
arrependimentos talvez
e tudo o que restou
cabe agora na palma da mão
esvai-se entre os dedos
como minúsculos grãos de areia
que o vento abraça
e nos rouba

tudo o que restou
 um espaço descerrado
no coração da vida




alexandra, 03-01-2003



distância



a tua presença longínqua
não me basta
as minhas entranhas
aguardam-te ainda
os meus lábios absorvem
o pesar da tua ausência
e o meu corpo todo
ainda prenhe de ti
clama o teu nome 


alexandra, 2002





quarta-feira, 8 de agosto de 2007

despedida




lá fora
a flora dolente
ondeia os longos braços
embalada pelo meltemi morno
ciciante

aqui
o assombro sucede à desleal frieza
da acre despedida
apodera-se de nós
- outrora crentes num Fado
que se dissipa pertinaz

a dor transborda desgovernada
dos olhares inconsoláveis
e os deuses
impotentes
fazem da natureza
a expressão da sua fúria




alexandra, 2003





sexta-feira, 3 de agosto de 2007

desejo




qual árvore vestida de outono
uma a uma as folhas abandonam-me 
deixam-me nua
e o solo onde lentamente me acabo
é o mesmo que após longo e gélido Inverno
nutrirá minhas raízes
fortificará a doce seiva
que me há-de enverdecer de novo
e acordará em mim
o desejo de recomeçar o sonho de viver




alexandra, 2001



visão



vi
no espelho da alma
lágrimas tornadas rios
oásis tornados desertos
oceanos de pedra
vida retrato de morte



alexandra, 2001






subitamente



de súbito
oceanos desabaram sobre mim
e qual arca de noé
levantada do chão por uivos ciclónicos
navego entre o céu e a terra
prenhe de medos e esperanças
parida que foi a dor da desilusão



alexandra, 2002






quinta-feira, 2 de agosto de 2007

grito silenciado



mergulhada que é a alma
nas catacumbas da vida
cada instante liberta
o grito que em vão se detém

o frio marmóreo
de cada gesto olvidado
emerge da flor púrpura
que pulsa dentro do peito
e rosários de cristal
lançam-se incontroláveis
pelos trilhos sulcados
pela dor letal
que desfigura o rosto
e envenena o ser


alexandra, 2004 



vida



na desleal arena da vida
a existência acontece
matreira
répteis desmedidos
espreitam uma irreflexão
pérfidas serpentes
entrelaçam-me prazenteiras
e o riso das hienas
pressagia o odor putrefacto
do meu fim 



alexandra, 2003










abandonadamente só
estendo a mão
mas até o sono me deixou só

alexandra, 2002




quarta-feira, 1 de agosto de 2007

lágrimas




as lágrimas
que hoje derramo pelo chão
são as raízes que
amanhã
me ajudarão
a manter de pé


alexandra, 2002





im memoriam



o ser que foste
apagou-se silenciosamente
o pavio da vida
repentinamente se extinguiu

de ti nem nome nem datas
resplandece o olvido
o desprendimento pungente
aberrante
nesse cantinho esquecido
que partilhas agora
com os que em sossego
alcançaram também o infinito

para eles flores
da cor dos abraços
em tons de saudade
para ti o vazio
nesse plaino de dor
um número tão somente
nada mais

numa morna tarde de inverno
procurei-te
e com uma singela rosa branca
respeitosa e sentida
anonimamente nomeei-te



alexandra, 2004






solidão

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alexandra, 2001